junho 13, 2017

psycho killer (parte 1)


©Kelly Reemtsen

Quando se tem um problema, uma dependência, de álcool, qualquer bar recôndito, numa qualquer cave de prédio, assume contornos de paraíso reconfortante. Foram os pensamentos de Duarte ao descer os degraus escuros, iluminados apenas pelo néon azul sumido que dizia "Bar". A fraca luz continuava no interior. Não prestou atenção ao seu interior, caminhou rápido para um banco alto ao balcão.  Puxou de uma nota, largou-a e disse:

- Whisky barato, e vá enchendo.

O barman, já grisalho, não largou o pano dos copos, fitou-o, e leu-o de cima a baixo, treinado pela experiência.

- Boa noite. Tem preferência de marca? Gelo?
- Não, e não é preciso gelo.

Enquanto servia, atalhou:

- Fechamos às quatro.

Reconheceu logo os traços de um alcoólico, a rapidez em ser servido, o alhear do espaço envolvente, a nota à frente, gestos e gestos já gastos à sua vista.

Duarte levou o copo à boca e logo sorriu. Só o cheiro forte já o acalmava, o sabor destilado encheu-lhe o corpo. Acalmou ao ver o fundo turvo do copo. Ganhou novamente o controlo das suas mãos trémulas.

- Peço desculpa. Boa noite. Podia servir-me outro?

Não levantou a cabeça do balcão em madeira gasta disfarçada com verniz, também ele já gasto. Tinha vergonha, da sua figura débil e dependente, da sua falta de maneiras, e no fundo do resto de homem em  que se tinha transformado.

- Aqui tem.
- Obrigado, agora já agradecia duas pedras de gelo.

Sempre sem tirar os olhos do copo, do balcão e agora do maço de cigarros que tinha pousado, Duarte sentia o corpo retomar à normalidade. A cabeça já não estava pesada, as mãos já não termiam. A música que passava era Sinnerman de Nina Simone. Duarte sorriu, lembrou-se do seu início: "oh Sinnerman, where you gonna run to?". Já sei meu Deus que sou pecador. Já sei, pensou. Devias mandar-me outros sinais, e não evidências. Pensar em Deus, pensar em como tinha chegado aquela cave, pensar em como a sua vida era ela própria uma cave escura, faziam doer a cabeça cansada, por isso resolveu levantar a cabeça e ver em volta, procurando distracção.

Rodou à direita. Era só mais um bar, escuro, com jazz rouco em colunas velhas. Uns quadros com fotografias de mestres como Miles Davis e Louis Armstrong. Meia dúzia de mesas pequenas, com candeeiros. Uma espécie de palco, um estrado, onde outrora tocaram aspirantes a mestres. Numa mesa um casal, trocam beijos e mãos, e gastam o pouco que sobra do rendimento. Noutra mesa, mais abastados, um casal gay que mantem distância física, mas que os olhos não escondem outras luxúrias.

Igual a tantos outros buracos negros, onde Duarte se arrasta faz dois anos, num suicídio lento, de comiseração degradante.

- Boa noite. Dá-me lume?

A meiguice da voz fez Duarte voltar-se rápido para a sua esquerda. Uma voz que indiciava a presença de um anjo.

(para continuar noutro post)


Sinnerman by
Nina Simone












16 comentários:

  1. curiosamente à espera de mais :)

    Abraço

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  2. saber esperar é uma grande virtude, que devemos cultivar :)))

    já não demora!

    grande abraço

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  3. Confesso que vinha atrás dos Talking Heads dos quais sou fã incondicional, mas Nina também está bem.

    Aguardemos o anjo...

    Abraço, caro Bondurant

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    1. E confessa muito bem. A história nasceu da imagem, e do facto de minutos antes ter ouvido precisamente a música Psycho Killers dos Talking Heads. Mas o Sinnerman não me sai da cabeça desde que a ouvi outro dia no blog da Cuca Pirata...
      Por isso mesmo é obrigatório a segunda parte da história para ouvirmos os simpáticos Talking Heads :)

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    2. Aguardo ainda mais ansiosamente. Até já projecto uma parte III ou epilogo com o ""road to nowhere". :)

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    3. fica desde já convidado a escrever o psycho killer parte III, com essa banda sonora :)

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  4. Viva, um whisky de cada vez. Para mim, sem gelo tbm.! :))
    Viva, a intermitente loucura.
    Estou quase fã. :))

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    1. Sou fã de velho sem gelo, de malte um Bushmills com gelo :)

      Obrigado pelo entusiasmo que não sei agradecer :)

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    2. Tem bom gosto. :)

      Não tem de agradecer.

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  5. Ansiosamente à espera do próximo capitulo :)

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  6. A gerir o suspense? Estamos à espera... ;)

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    1. Oh com pressão não vale :) desculpa tem sido só falta de tempo...
      da próxima escrevo logo tudo e depois divido!
      Mais daqui pouco já vai :)

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    2. Não era minha intenção criar pressão:). Não sabia que ainda não estava todo escrito. Demora o tempo que for preciso. Desde que escrevas. Bom dia de folga

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  7. É uma boa história. Acho que até consegui ouvir a música e ver o bar.

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    1. Cuca dezenas deles em Nova Iorque :)

      Obrigado:)

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